Em 1977, a China disciplinava o trânsito com voz e paciência coletiva. Em 2026, ela põe humanoides no semáforo e no palco, e transforma o que parecia propaganda futurista em política industrial e rotina
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Iara Vidal
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Henfil, nessa nossa prosa imaginária sobre a China que você viu em 1977 e a China onde vivo hoje, em 2026, já falamos do Exército Popular de Libertação e do transporte público. Hoje preciso te contar algo que, se eu não estivesse aqui, também acharia exagero de propaganda futurista: os robôs humanoides da China.
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Camarada, o que está acontecendo neste país em termos de tecnologia é de outra ordem histórica. Eu mesma só acredito porque vejo. E, ainda assim, vendo, me pego repetindo: não é possível.
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No seu registro sobre a China que você viu no século passado, há um trecho em que você descreve os cruzamentos tomados por bicicletas e o coreto do guarda de trânsito:
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“Tem sinais de trânsito, sim. Mas os guardas ficam dentro destas cabinas orientando, através de alto-falantes, os milhares de ciclistas. Os pedestres também. Falam sem parar. Pedi tradução. São falas para chamar a atenção. E por vezes se dirigem a alguém em particular. O camarada na bicicleta deve esperar, ter paciência etc. É uma espécie de apoio para acalmar milhões. E funciona.”
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Pois bem, Henfil. Essa presença que você viu, a voz que organizava o fluxo, começou a ser substituída por robôs. Sim, robôs humanoides.
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Em janeiro, a mídia chinesa noticiou que, em um cruzamento movimentado da cidade de Wuhu, na província de Anhui, no leste do país, quem orienta o tráfego não é mais apenas um agente de carne e osso. É a “Unidade de Polícia Inteligente R001”.
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Vestindo uniforme policial, colete refletivo e boné branco, o robô parece humano à distância. De perto, o acabamento metálico e a estética futurista transformam o cruzamento numa cena quase cyberpunk, com pedestres parando para fotografar o novo guardião do semáforo. Integrado ao sistema de sinais da cidade, o R001 executa gestos padronizados sincronizados com as luzes e utiliza inteligência artificial para identificar infrações de ciclistas e pedestres, emitindo advertências em tempo real.
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Se em 1977 o alto-falante educava milhões, em 2026 é o algoritmo que disciplina o fluxo. E funciona.
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Robôs humanoides lutando kung fu
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Henfil, você não vai acreditar no que eu vi com meus próprios olhos: robôs aqui lutam kung fu, de verdade. Quando assisti à Gala do Festival da Primavera deste ano, quase caí da cadeira. Pensei: truque de câmera, montagem, pós-produção. Que nada. Ao vivo. Transmissão do CMG. Plateia real. Robôs reais executando movimentos de artes marciais ao lado de crianças de um templo.
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E não eram quaisquer crianças. Os meninos que dividiram o palco com as máquinas eram alunos da Tagou Martial Arts School , em Dengfeng, na província de Henan, ali onde fica o Templo Shaolin.
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Ou seja, tradição milenar de um lado, inteligência incorporada do outro. Monges mirins formados na disciplina física e espiritual do kung fu contracenando com algoritmos treinados em laboratório.
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O número se chamava “WuBot”. E viralizou mundo afora.
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Gala do Festival da Primavera: a vitrine da China
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A Gala do Festival da Primavera, você precisa saber, começou em 12 de fevereiro de 1983. Desde então, é transmitida todos os anos na véspera do Ano-Novo Chinês. Hoje, produzida pelo Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês), é considerada o programa mais assistido do planeta naquela noite. Não é um show qualquer. É um ritual midiático nacional.
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E neste ano, quatro empresas chinesas colocaram seus robôs no palco: Unitree Robotics, Noetix, MagicLab e Galbot.
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A diretora-chefe da Gala de 2026, Yu Lei, disse que a edição teve uma alta “concentração” de robôs para mostrar o desenvolvimento multidimensional da indústria chinesa de robótica. Tradução para você, Henfil: não é mais demonstração isolada. É política industrial transformada em espetáculo cultural.
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E o impacto foi imediato. Às 22h, durante a transmissão ao vivo, a JD.com colocou à venda alguns dos modelos exibidos. Em minutos, esgotaram. Dois robôs multifuncionais G1 da Galbot, vendidos por cerca de 630 mil yuans, foram comprados quase instantaneamente. O palco virou vitrine.
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Spoiler: não é dança. É teste de campo.
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A MagicLab abriu a noite com o MagicBot Gen1 acenando para o público. Depois, o MagicBot Z1 executou o movimento acrobático “Thomas 360” — a empresa afirmou ser a primeira vez que um humanoide daquele porte realiza a manobra.
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Na sequência, um esquete com a atriz Cai Ming trouxe um robô biônico da Noetix que reproduzia seu rosto. O sistema facial integra 32 motores, 12 dedicados à boca, permitindo expressões detalhadas e sincronização labial precisa. Internautas lembraram que Cai já havia interpretado uma “esposa robô” na Gala de 1996. Trinta anos depois, a ficção voltou como engenharia.
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Mas foi o “WuBot”, da Unitree, que me fez pensar em você.
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Robôs H1 executaram parkour sobre mesas, mortais aéreos de três metros, giros em uma perna, um airflare com sete voltas e meia. No ano passado, eles dançaram Yangko. Este ano, lutam kung fu. A empresa atualizou algoritmos, hardware e sistemas para alcançar esse nível. O fundador Wang Xingxing afirmou que os movimentos têm aplicação prática futura em operações coordenadas.
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Percebe, Henfil? Não é só coreografia. É teste de campo disfarçado de espetáculo.
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No encerramento, seis MagicBot Z1 e duas unidades Gen1 dividiram o palco com artistas como Yi Yangqianxi e Jerry Yan. Movimentos sincronizados, giros rápidos, saltos conectados sem erro.
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A Galbot apareceu em um curta com Shen Teng e Ma Li. Seus robôs dobravam roupas, giravam nozes na mão, entregavam garrafas d’água com precisão quase doméstica. A empresa afirma usar um modelo integrado chamado AstraBrain, combinando “cérebro-cerebelo-controle neural” para coordenação total do corpo e das mãos.
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Não foi a primeira vez que máquinas roubaram o show. Em 2025, já haviam dançado. Meio durinhos, é verdade. Este ano, não.
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Este ano, camarada, eles lutam. E lutam ao lado de herdeiros do Templo Shaolin.
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Se em 1977 você viu guardas de trânsito falando ao alto-falante para disciplinar milhões de bicicletas, agora eu vejo máquinas executando kung fu diante de um bilhão de espectadores.
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É um salto de meio século comprimido em um único compasso televisivo.
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Não é só show. É demonstração estratégica.
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Quando a China coloca robótica, inteligência artificial e manufatura inteligente no centro do planejamento, e depois esse futuro aparece no palco mais visto do país, não dá para tratar como coincidência. A Gala vira uma vitrine de Estado: ela traduz uma prioridade de política industrial em imagem, ritmo e espetáculo.
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O sinal de maturidade não está só no aplauso do público. Está no fato de que já existe base para levar esses sistemas do palco para o chão: robôs para trabalhar, para operar em ambientes industriais, para reforçar logística, inspeção e serviços — e, mais adiante, para entrar no cotidiano doméstico.
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Se nos anos 1970 a grande questão era como organizar milhões de pessoas para construir infraestrutura, agora a questão é como integrar milhões de linhas de código ao mundo físico.
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Você viu alto-falantes disciplinando ciclistas. Eu vejo algoritmos disciplinando máquinas. Mas a lógica de fundo — planejamento, escala, coordenação — continua.
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Robôs no cotidiano — para além do espetáculo
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Henfil, o kung fu dos robôs na Gala do Festival da Primavera é só a ponta visível de um iceberg que está se formando sob a superfície da vida diária aqui. Não se trata de luzes, performances e aplausos — trata-se de robótica entrando na rotina das pessoas e das cidades.
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Na economia e na vida urbana chinesa, robôs já não são apenas atração de televisão. Eles estão sendo colocados para trabalhar em serviços públicos e privados, em tarefas do dia a dia, como parte de uma estratégia de Estado para automação e modernização.
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É o caso, por exemplo, do robô que controla o tráfego em Wuhu, sobre o qual te contei no início dessa prosa imaginária. Não é milagre nem ficção científica. É infraestrutura: automação urbana conectada a semáforos e sensores, funcionando em tempo real, 24 horas por dia.
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E não se limita às ruas. Eventos como a World Robot Conference, em Beijing, mostram que os humanoides estão deixando o laboratório e encarando o mundo real: servem café, atuam em linhas de produção, organizam tarefas em conferências e interagem com visitantes. É ali que eles precisam lidar com gente, espaço apertado, ritmo de cidade.
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Na prática, essa transição já aparece em usos bem concretos: inspeção, ordenação de materiais, rotinas repetitivas e tarefas de serviço — e, aos poucos, até funções domésticas mais simples.
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Nada disso acontece por acaso. O governo chinês empurra essa agenda como parte da modernização do país. Robôs, inteligência artificial e automação são vistos como respostas a desafios demográficos e econômicos: menos mão de obra disponível em alguns setores, população envelhecendo e custos do trabalho humano subindo.
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Com esse empurrão de política pública, a robótica sai do protótipo e ganha escala: entra em fábricas, corredores logísticos e serviços urbanos — e vai, pouco a pouco, se aproximando das casas.
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O salto que eu vi no palco do CMG, portanto, não é espetáculo isolado. É um movimento mais amplo: robôs integrados a serviços públicos e automação urbana; humanoides testados em atendimento e rotinas de serviço; robótica aplicada à indústria, à logística e à inspeção — tudo ligado a planejamento, investimento e coordenação de longo prazo.
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Ou seja: o que parecia futurismo puro há poucos anos já está virando rotina — não só nas fábricas, mas nas cidades e, em breve, dentro das casas e dos serviços cotidianos.
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Do 14º Plano Quinquenal ao kung fu dos robôs
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Henfil, esse salto não começou em 2026. Ele vem sendo preparado desde o 14º Plano Quinquenal (2021–2025).
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No 14º Plano, a palavra-chave era autossuficiência tecnológica. O documento oficial fala em fortalecer cadeias industriais estratégicas, desenvolver robótica avançada, inteligência artificial, manufatura inteligente e integração digital-industrial. A meta era clara: reduzir dependências externas e transformar tecnologia em base de soberania.
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Ali, a robótica já aparecia como setor prioritário. Não como curiosidade futurista, mas como engrenagem central da modernização produtiva.
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E então surge um conceito que ajuda a entender o momento atual: “novas forças produtivas de qualidade”.
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Essa expressão, usada por Xi Jinping e incorporada aos debates estratégicos recentes, descreve um novo estágio do desenvolvimento chinês. Não se trata mais apenas de crescer em volume. Trata-se de crescer com inovação de alta intensidade tecnológica, com IA, biotecnologia, computação avançada, novos materiais e — sim — robótica humanoide.
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Quando você vê um robô executando kung fu ao lado de crianças formadas na tradição Shaolin, está vendo a encenação perfeita dessa ideia: tradição milenar + nova força produtiva.
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Não é ruptura com o passado. É atualização do passado.
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A disciplina mudou de forma
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Você descreveu, em 1977, a China das bicicletas, da paciência coletiva, do guarda orientando milhões pelo alto-falante. Aquilo era disciplina social aplicada à construção nacional.
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Hoje, a disciplina assume outra forma: planejamento tecnológico de longo prazo.
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O 14º Plano Quinquenal estruturou a base industrial. O 15º Plano Quinquenal aprofunda a aplicação da inteligência incorporada. O Governo escreve “robôs inteligentes” no relatório oficial.
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E meses depois, eles estão no palco principal da televisão mais assistida do mundo.
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Percebe o padrão, Henfil?
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Aqui, o espetáculo não antecipa a política. Ele confirma a política.
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Beijinhos de Beijing!
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Por Iara Vidal, pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).



